Hoje vou falar um pouco sobre mim. O meu nome é Zé Miguel Grandão e é um nome muito bonito. As pessoas costumam perguntar-me se sou só Grandão no nome. Gostaria de acabar, de uma vez por todas, com essa dúvida e dizer que tive uma amiga brasileira que costumava tratar-me por Grandão… deitava-se no sofá e dizia “vem cá Grandão, seu bobão”, mas passou a tratar-me por Zézinho assim que me viu nu pela primeira vez. Espero que fique esclarecido.
Gosto muito do rock ‘n’ roll, tenho uma guitarra e já toco desde miúdo. Guitarra é que só aprendi a tocar aos 15 anos. Tenho uma banda, um projecto a puxar para o sério – temos temas sobre moscas – e o primeiro disco sai p’rá semana em bares e feiras de todo o distrito da Guarda. Hoje não vos falarei dessa banda, mas sim duma outra, daqui a algumas linhas.
O gosto pela música foi das poucas coisas que os meus avós me transmitiram, não desfazendo do herpes genital. Ambos tinham também bandas, só que eram daquelas gástricas – que é uma piada muito original da minha parte. A minha avó é uma grande senhora. Apesar do Alzheimer, uma doença que apanhou por causa dos mouros, e apesar também da incontinência urinária, que é chato porque a velha trabalha numa central eléctrica. O que faz dela boa condutora, mesmo sem carta e com 97 anos. Sofre muito o raio da velha… a incontinência urinária é uma coisa chata, tipo, está a velha toda contente no ginecologista… enfim. Perdi-me um pouco com isto tudo.
A minha primeira banda:
Lubrificante: É com uma enorme saudade, que recordo os tempos longínquos em que as únicas coisas que me atormentavam eram a quantidade de borbulhas que tinha na cara, o não conseguir encontrar a última estrela do Mário 64, e a espanhola que não queria nada comigo.
Andei a vasculhar na papelada e encontrei alguns marcos da minha adolescência, que me trazem à memória histórias mais parvas do que Morangos com Açúcar, e isso é dizer alguma coisa.
Aprendi a tocar guitarra enquanto frequentava o 8º ano de escolaridade, mais ou menos na mesma altura em que nasceram para o mundo artistas e bandas como os Cebola Mol, Tony Pessegueiro e Zé Cabra. Eu, desde o primeiro «acorde», grande fã de Cebola Mol, tratei de espalhar a palavra pelos meus colegas – o que fez com que a farmácia local vendesse quantidades exorbitantes de comprimidos para a garganta.
Tive, então, juntamente com os meus colegas Luigi, Russo e Zé, a ideia de formar uma banda. O problema era que, tirando os três acordes que eu sabia fazer na guitarra, ninguém mais sabia tocar puto, a não ser flauta porque se aprendia na escola.
A constituição da banda era, então, a seguinte – e tenho isto escrito num papel: “Eu – Guitarra e grunhidos; Russo – Canta e toca ferrinhos; Luigi – bateria e comida; Zé – Autocarro.” Apesar de não haver bateria – era mais um bombo e o piso sintético do campo de ténis do Luigi – nem ferrinhos. Autocarro não é um instrumento, eu sei.
Escreveram-se vários temas na altura. No entanto, muitos caíram no esquecimento. Dois dos que escaparam foram:
- O Pilau Do Chéu (a banda acreditava que o professor de Educação Física era Deus, porque andava de fato-de-treino todo o dia, era mau e tinha um Onda Civic.)
- Boddheu (dedicada a um professor de Inglês que tinha uma aparência muito semelhante à de um bode, falava de como é dura a vida do animal em questão.)
A banda ensaiou cerca de poucas vezes, no entanto, teve vários nomes. Entre eles: Jackoff, Leightninho the Boddhe, e Banháda the Merdha. Eis então as letras sobreviventes – convém saberem que eu tinha 14 ou 15 anos quando escrevi isto.
“O Pilau Do Chéu
Estava na cama a dormir descansado
E oiço a cama da minha avó a gemer
Eles estavam mesmo no quarto ao lado
O Txéu e a minha avó a f*d*r
O Txéu tem um pequeno pilau
E estava a chupar na minha avó
A p*t* dizia tu és mesmo mau
E começou a fazer cocó
Estava na cama a dormir descansado
Oiço a cama do meu avô a rangir
Eles estavam mesmo no quarto ao lado
O Txéu e o meu avô estavam-se a vir
O Txéu tem um pequeno pilau
O meu avô estava-se a masturbar
O c*brã* disse tu és mesmo mau
E o Txéu pôs-se de c* pró ar”
“Boddheu
Fui a dar aulas e ouvi os meus alunos todos a chamarem-me bode e comecei a chorar e a dar murros na mesa mas os c*brõ*s não se calavam até mudei de terra pra ver se paravam de me chamar bode todas as pessoas todas só me metem defeitos também sou bom nalgumas coisas
Só por não ser bonito as pessoas chamam-me bode prefiro morrer do que ser bode feio a minha mãe só me dava leitinho quando era pequenino não me deixava ir à escola só me fazia ir pastar tenho um cabelinho tão lindo mas ninguém gosta de mim à dez anos entrei num jardim zoológico e já não me queriam deixar sair outra vez perdi-me num rebanho de ovelhas e nunca mais me encontraram
Outra vez puseram a minha fotografia minha numa revista de passatempos para descobrir as diferenças entre eu e outro bode quando era um cordeirinho puxavam-me as maminhas para ver se saía leite depois queriam-me matar pra comer com batatas quando olho pró espelho só consigo pensar
Ai sou tão bode ai sou tão bode”
É com uma enorme saudade que recordo os tempos longínquos em que as únicas coisas que me atormentavam eram a quantidade de borbulhas que tinha na cara e o não conseguir encontrar a última estrela do Mário 64.
Creio que é tudo. Contribuiu isto para a sociedade, cultura e música portuguesa? Na ponta d’um c*rno! Não estou longe do sucesso, portanto…
Zé Miguel Grandão Jr. | www.myspace.com/billyhanashi
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One Comment
1 rapaz wrote:
Vai Grandão!
Despregada viagem, um pouco suja mas saborosa porque imprevisível.
ah! julgo que a caralhada quando premente deve ser assumida e não censurada pelo próprio autor.
Já agora, porque é que te chamas Grandão?
Grato, um abraço
rapaz mal desenhado