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O tempo não é o mesmo.

Hoje não está bem calor, nem está bem frio. Esta música não é bem rock progressivo independente, é mais um género que funde o que os cantautores faziam com uma vertente moderna de ruídos sónicos. Mudam-se os tempos mudam-se também as formas de dizer exactamente a mesma coisa, por outras palavras. Não se iludam. O nosso querido Saramago escreveu um livro inteiro acerca do desaparecimento da morte, no nosso país, sim, só em Portugal, e as suas consequências, bem, nunca tinha pensado naquilo daquela maneira. Têm noção da quantidade de coisas que desabariam se deixasse de haver a morte? Bom, mas não é dela que vou falar hoje. Vou falar antes de nós. Ok, não vou falar dela directamente, vou deixá-la apenas implícita. O aquecimento global, como lhe chamam, é evidente. A meteorologia é relativamente parecida a outros anos, mas realmente há uma série de acontecimentos que não podemos desprezar. Está tudo a mudar, estamos todos a mudar. Temos estado, estes últimos anos, a adaptar-nos às mudanças, a adaptarmo-nos a fazer muito calor, de vez em quando e não por um período definido, e a fazer muito frio apenas por uns dias. Temo-nos habituado a estar preparados para, se chover, na altura em que combinamos as férias na praia, termos um plano alternativo. Temo-nos munido de PDA’s, iPhone’s, computadores portáteis, GPS’s, para estarmos sempre a segundos de uma alternativa viável. Um beijo já não é só um beijo, é a possibilidade do seu falhanço e hoje, estar preparado é mais importante que fazer, de facto. Pois eu continuo a não querer saber. Vivo dentro disto, porque se não o fizer diagnosticam-me uma qualquer doença mental. Muita coragem têm os que vivem dentro do seu próprio mundo, não permitindo que ninguém entre. Eu tentei que fosse apenas algo que não me comprometesse, talvez num gesto ténue de covardia. Portanto decido fazer o que eu quero, quando quero, mas condicionado. Ora bem, então não é o que quero quando quero, é o que quero quando me deixam e de vez em quando sem pedir licença. É? É isto que nos serve para vivermos a vida? Um guarda-chuva num dia de Verão com 40 graus à sombra? Ah, isto não é bem pop electrónico, eles vestem-se como rockeiros e têm uma atitude muito irreverente ao vivo. É nesta indefinição que vivemos. Eu não posso ser o Davide só por ser eu próprio, pois basta ter uma atitude parecida com a de outra pessoa, que vem logo aquela senhora, com a máquina das etiquetas, e me espeta o rótulo de inútil. Pois, meus caros, não precisa de ser como se vê, pode ser como se quer. Nós vivemos rodeados de amigos, de pessoas que nos sorriem, outras que nem por isso, mas ainda temos essa interacção. Temos as nossas casas, que podemos encher com uma mulher, ou um homem, ou vários homens e várias mulheres, como queiram! O importante é que o façam, que a música toque alto e se o vizinho se queixar, convidem-no a entrar (só não o obriguem a ouvir a música alta quando tem que ir trabalhar de manhã cedo). Não podemos juntar toda a gente? Não podem as mensagens juntar toda a gente? Não pode a música juntar toda a gente? Não podemos gostar do que gostamos, sem que alguém nos diga? Não fechamos uma cidade ao trânsito, mas podemos seguramente fazê-lo, sem dificuldade.

Davide Lobão | www.myspace.com/chemicalwire

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