São tempos de austeridade. Existe uma série de razões, na sua maioria, económicas, que nos obrigam à tão familiar expressão de “apertar o cinto”. Imediatamente atribuímos culpas, apontamos o dedo ao governo e à sua inutilidade, aos políticos e à sua displicência. Bom, de facto, para além de nos estarmos a esquecer de nós próprios e da culpa que nós carregamos, está tudo certo. Carregamos aos ombros a era da informação, carregamos aos ombros a internet, que estará a entrar na adolescência. Educar um adolescente (dizem que) não é tarefa fácil. Mas toda a gente se aborrece muito, às vezes, e outras nada faz. “Se eu puder estar sentadinho sem ninguém me vir importunar, está tudo óptimo.” Pois, quantos de vocês se reviram nesta frase em tantas e tantas alturas das vossas vidas? Até eu me revejo ali. Um dia julguei que era Portugal e os portugueses, mas que culpa podemos nós ter do mundo nos manipular? Que culpa podemos nós ter de alguns acharem que a nossa arte não vale de nada e a dos outros é que seja realmente valiosa? Como podemos nós achar bem ou mal? Venho por este meio redimir-me do muito que já disse, até mesmo aqui, e dizer-vos que o mal é global, não é nosso, é global. Nós só padecemos de sermos poucos e termos um país pequeno. É tudo mais facilmente arranjável, mais facilmente colocado em caixinhas, pela meia dúzia que manda nisto tudo. É uma questão de escolhas. Todos decidem e escolhem ao longo da vida, isso determina o nosso futuro, este presente que temos. Nós escolhemos, tal como globalmente se faz logo somos iguais, logo estamos igualmente perdidos. Entenda-se, crise?! Global?! Na. A mim não me venham dizer isso. “Os mercados andam a pressionar a Grécia e Portugal” ao que se sabe, não está nem pouco mais ou menos na situação da Grécia, mas reparem na delicadeza das palavras, “os mercados andam a pressionar”. Isto não é falta de dinheiro, até porque o dinheiro é algo bastante fictício, mas que no fim, no fim meus amigos, determina motivação, determina propósito. Já não fazemos praticamente nada sem pensar que é para ganhar dinheiro. Já ouvi muitos dizerem “eu nasci na época errada, a música em 60 é que era” e porque seria? Todos ganhavam dinheiro com a música, mas era só para poderem ter uma tripe maior, com uma droga diferente. Tratar-se-ia de MTV Cribs? Tratar-se-ia de carros e bling bling? A música soa-me sempre como partilha, como descoberta. Hoje temos o quê? Milhões de pessoas a tentar, milhões a tentarem ficar ricas com a honestidade da música, só que são raras as pessoas honestas no mundo, às vezes apenas com a intenção de se protegerem do juízo de todos. Todos queremos ter uma opinião, dizer algo acerca de… O fenómeno “katyzinha” é como muitos outros que estão acontecer no youtube, as we speak. Toda a gente quer dizer e falar. Há bem pouco tempo o Peter Steele, dos Type O Negative faleceu, o Devon Clifford, baterista dos You Say Party, We Say Die! faleceu também, bom, outros também foram anunciados no último mês e nós achamos que podemos ir falar e dizer e enviar um e-mail e ir ao funeral. Podemos, de facto, mas poderemos realmente? Existe assim uma proximidade tão grande? Todos os dias, abro a página do Facebook e tenho ali, à distância de um clic, todos os promotores dos grandes eventos em Portugal, do mundo até, todos os dias posso tentar chegar às rádios com mais audiência e falar-lhes da música que fiz no meu quarto, antes de me vestir para sair. Posso dizer que inventei um novo conceito para a música e agora é uma mistura do que a minha mãe ouvia com o rock que conheço e gosto hoje, talvez de repente, se for o timing certo, toda a gente me ache imensa piada, só que os quinze minutos de fama são uma realidade cada vez mais evidente, a diferença é que agora não são quinze minutos, serão mais os quinze segundos.
A realidade é, hoje, cada vez mais fora de nós, ou será ao contrário? Antes teríamos o nosso próprio mundo a misturar-se com o mundo real, mundo real entendido como mundo onde co-habitamos com os outros (sim, temos que partir de algum lado), hoje existe o nosso mundo, o mundo real e o mundo onda vivemos outras vidas, várias até. O desafio é arranjarmos um fio condutor. Os media, sejam lá eles de que forma forem, continuam a ser, hoje, a manipulação derradeira de tudo que fazemos. Se por esses fóruns fora nos disserem que a banda x é que é a moda, hoje, nós vamos seguir isso e acompanhar, quer gostemos quer não, vamos tentar sempre perceber porquê. O que me leva a outro tema. Há bem pouco tempo senti a centralização na capital, senti-a quando nunca tinha sequer pensado nela. Vivo no Porto desde sempre e continuo a achar o Porto uma cidade incrível. A nova vaga de música pop vem toda de Lisboa, de um núcleo de pessoas que se desdobram nos projectos uns dos outros para mostrarem uma nova vertente do rock. Não servirá este texto para mostrar a minha opinião acerca da música que fazem, mas antes para que alguém perceba como as coisas estão centradas ali, na capital. De repente, alguém faz um projecto novo, com uma personalidade diferente do que até então tem saído para cá para fora (porque antes de Diabo na Cruz já havia os TV Rural), os amigos deste também partilham o gosto por esse estilo e até gostam que as coisas sejam assim menos artificiais, com uma estética algo descuidada, muito à semelhança dos Libertines mas sem a parte da loucura do rock e das drogas, só esteticamente falando, com o som a ser lo fi, às vezes mas nem sempre. Então o amigo do amigo tem também as suas canções em casa e quer gravá-las e há todo um grupo de pessoas, dos media, que se movem à volta, que percebem que algo novo está acontecer, e voilá, com mais as histórias que vocês quiserem pôr no meio, temos esta nova vaga de pop em Portugal. Acho bem? Acho mal? Se calhar pouco interessa. Interessa que há mais música aparecer, interessa que criam as fundações para aparecerem cada vez mais coisas. O que veementemente gostaria de dizer aqui é que no Porto há umas quantas bandas que mereceriam tanta ou mais atenção, mas, tal como disse mais acima, somos poucos, precisamos de tempo para digerir tudo.
Bom, e a volta das voltas do que é assim é o que é mesmo quando não for. Poucos há como o Serginho, do Aquário, do Porto Canal, que acredita que podemos fazer aparecer uma “cena” a partir do Porto. Eu continuo acreditar e sinto que estou cada vez mais perto. Mas reparem nas diferenças, eles, em Lisboa têm a MTV e nós cá temos o Porto Canal. Hmmm.
http://www.myspace.com/diabonacruz
http://www.myspace.com/tvrural
Escrevam-me: davidelobao@gmail.com
Davide Lobão
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One Comment
1 k69 wrote:
agora temos a ‘Marsupial’ também. Vamos lá começar a cena!